Homicídio entre jovens cresce 160% em 10 anos
19.07.2013Pesquisa também constata aumento de 93% nos assassinatos da população em geral
No fim da tarde do dia 12 de março de 2011, o estudante Paulo Henrique (nome fictício), de 16 anos, entrou para as estatísticas da Segurança Pública do Ceará. Na data, lembra a sua mãe, Fátima (nome fictício), ele foi morto a tiros devido à cobrança de dívida do tráfico de drogas da Lagoa Redonda. Naquele ano, o rapaz foi um dos 624 jovens entre 15 e 24 anos assassinados na Cidade de Fortaleza, marcando a capital cearense como a sexta mais violenta do Brasil para a população dessa faixa de idade.
Foram quase duas mortes por dia, registrando um aumento de 160% no número de homicídios na Cidade em comparação com os dados de 2001, quando 240 jovens foram assassinados. É o que constata o Mapa da Violência 2013: Homicídio e Juventude no Brasil, publicado, ontem, pelo Centro de Estudos Latino-Americanos.
O autor do mapa, Júlio Jacobo Waiselfisz, avalia que os níveis de violência alcançaram os "limites do absurdo", nas capitais, com índices que ultrapassam os 100 homicídios por cada grupo de 100 mil jovens. Em Maceió (AL), aponta, a taxa chegou à marca "inaceitável" de 288,1 por 100 mil, diz ele. Em Fortaleza, a marca atinge 129,7 pelo mesmo número de pessoas. Em 2001, a taxa era de 52,2 por 100 mil nessa faixa etária.
Segundo o estudo, a capital com os menores índices de violência contra a juventude, São Paulo, com uma taxa de 20,1 homicídios por 100 mil jovens, ainda está bem acima dos níveis considerados epidêmicos, 10 pelo mesmo número de pessoas.
Cenário
O Mapa da Violência também divulgou os dados relativos aos Estados e demais municípios. Em dez anos, o Ceará registrou um aumento de 150% no número de homicídios. O Estado pulou de 208 - uma morte de jovem em cada dois dias e meio -, em 2001, para 1.105 - três mortes por dia - em 2011. Ainda de acordo com o estudo, o Estado é o 11º no País e sexto no Nordeste na taxa de homicídio juvenil, com 65,6 para cada 100 mil. Há dez anos, essa taxa era de 28,9. Um aumento de 126,7%. Em 2001, o Ceará ocupava a 18ª posição neste triste ranking.
Entre os municípios, Simões Filho, na Bahia, é o que detém maior taxa de assassinatos da população entre 15 e 24 anos de idade, 378,9 por 100 mil. Rio Largo, em Maceió, é o segundo, com 324,1 por 100 mil. Excluindo Fortaleza, Horizonte, com uma taxa de 118,1 para 100 mil, está entre os 100 municípios com maiores taxas. Barbalha, com taxa de 98,9 e Maracanaú, com 95,6 também estão na lista.
No período maior, entre 1980 e 2011, o Mapa considera que as mortes não naturais e violentas de jovens - como acidentes, homicídio ou suicídio - cresceram 77,5% no Estado.
Para o sociólogo Paulo Fernandes Andrade, é um absurdo pensar que no Ceará, a cada 100 mil jovens, 65 são assassinados. "Se você comparar com conflitos armados como os do Iraque, Afeganistão ou os que atingem Israel e os territórios palestinos, a situação não só no Ceará, mas em todo o Brasil, é de epidemia", assevera ele. O País possui a taxa de 53,4 por 100 mil.
Paulo Fernandes concorda com Jacobo, quando ele aponta que o aumento da violência entre pessoas dessa faixa etária mostra a omissão da sociedade e poder público, especialmente os que moram nos chamados polos de concentração de mortes, no Interior de Estados mais desenvolvidos; em zonas periféricas, de fronteira e de turismo predatório; em áreas com domínio territorial de quadrilhas, milícias ou de tráfico de drogas; e arco do desmatamento na Amazônia.
Homens são as principais vítimas
A Mapa da Violência avalia que houve um aumento no número de assassinatos na população em geral. No Ceará, entre 2001 e 2011, o total de homicídios teve um salto de 114,8% nesse período: de 1.298 para 2.788.
Com relação à taxa por 100 mil, o aumento foi de 90,1%. Em 2001, 17,2 pessoas foram mortas em cada grupo de 100 mil, colocando o Ceará em 18ª colocação. Em 2011, essa taxa subiu para 32,7. O Estado ocupa agora 11ª posição. Alagoas, com 72,2 está em primeiro lugar e Santa Catarina, com 12,6 fica em último lugar. O Brasil registra taxa de 27,1 para 100 mil pessoas.
Entre as capitais, Fortaleza registrou aumento de 119,5% entre 2001 e 2011. Saindo de 609 mortes para 1.337 assassinados em uma década. A taxa é de 54 por 100 mil pessoas e coloca a capital cearense na oitava posição no Brasil. No comparativo da taxa de homicídios, o Ceará teve acréscimo de 90,1%, enquanto Fortaleza, chegou a 93,6% no período.
Vitimização
A distribuição de homicídios levando em consideração as questões de gênero e cor também foram analisadas. De acordo o documento, os estudos coincidem na afirmação de que a vitimização homicida no País é notada e fundamentalmente masculina. "A feminina só representa 8% do total de homicídios, mas com características bem diferentes da mortalidade masculina", diz o estudo.
Apesar disso, em 21 anos, 96,6 mil mulheres foram assassinadas. "A Lei Maria da Penha aumentou o rigor da violência contra a mulher, mas ainda registra números altos".
No Ceará, em 2001, 115 mulheres foram mortas e, em 2011, foram 190. Um aumento de 65,2% no período. O Estado ocupa a 21ª posição no ranking entre os estados mais violentos contra a mulher, com taxa de 4,3 por 100 mil. O Espírito Santo, em primeiro, possui taxa de 9,2 pelo mesmo número.
No Ceará, houve um aumento de 109,2% no número de assassinatos na população branca. Entre os negros, o acréscimo é maior, foi de 132,2% em dez anos. O documento aponta fatores institucionais que concorrem para enfraquecer as possibilidades de enfrentamento da violência, impondo entraves e limites às ações nesse sentido.
A reportagem tentou contato com o Estado para tratar da pesquisa, mas não obteve resposta.
LÊDA GONÇALVESREPÓRTER
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